O amor mascarado

Olhos

Era 1997. Eu tinha 7 anos e estava no auge da minha infância, passando pela transição de “bebê” para criança.

Acho que desde que me conheço por gente, sempre tive trauma do meu sorriso. Eu – assim como todas as crianças da mesma idade – acabara de trocar os primeiros dentes de leite e obviamente os que nasceram já vieram com o formato e tamanho dos que me acompanharão (espero) pro resto da vida.

Em uma época em que o bullying não existia, eu era de tudo um pouco: Mônica (como a personagem do Maurício de Sousa), dentuça, Madonna…Isso tudo graças ao tamanho e um problema de nome diastema, que faz com que os dentes da frente fiquem separados, como o da cantora. Obviamente me faltava todo o glamour dela, mas esse não era o ponto. Com tudo isso, contrariando todas as leis, acabei por não temer os dentistas (ao contrário dos médicos, por exemplo). Aprendi que eles eram os salvadores dos sorrisos oprimidos e meu sonho era poder rir livre, leve e solta.

O Dr. Y já era dentista da minha mãe antes mesmo que eu viesse para esse mundão e ainda lembro do dia em que o vi pela primeira vez. Eu, morrendo de medo, e ele com um sorriso estampado…nos olhos! Ele era um homem mascarado, mas seus olhos de descendência oriental sorriam pra mim. Foi um sorriso tão sincero e simpático que foi impossível não confiar nele.

Lembro que não haviam problemas clínicos com o meu sorriso: “Parabéns, nenhuma cárie” – ele disse. Confesso que não era a mais disciplinada na escovação e sempre fui fã de doces. Só que como qualquer outro mortal que sente orgulho de si mesmo, eu corei após o comentário. Na verdade, ainda com seus dedos em minha boca, tentei esboçar um agradecimento, que é claro que acabou virando um som sem sentido. Desde então eu acredito que os dentistas são treinados para essa linguagem, pois ele me entendeu.

Aquele dia foi um dos mais especiais da minha infância. Me apaixonei pelo ambiente, pelo cheiro da clínica e por aqueles olhos puxados que roubaram minha inocente confiança (fui enganada para fazer algumas extrações, mas eu o perdoei). Voltei tempos depois para os procedimentos de rotina e depois, com a desculpa de fazer companhia, passei a acompanhar o tratamento da minha mãe.

Um belo dia, antes de sairmos do consultório, acho que compadecido da acompanhante entediada, vulgo eu, Dr. Y me chamou para sentar na cadeira para um check-up rápido e um bochecho com flúor. Mas é claro que não foi essa atenção profissional que fez esse dia especial, mas esse foi o dia em que ele se “declarou”. Disse que eu era uma garota muito bonita. MEU DEUS! Se houvesse um botão de ejetar naquela cadeira, eu certamente o usaria nesse momento. “Quando crescer, vou me casar com você…mas acho que preciso me congelar, para não ficar muito velho até lá”.

Vivian estava des-mai-a-da.

Claro que se fosse hoje em dia, o pobre Dr. Y estaria preso, acusado de pedofilia, mas era apenas uma brincadeira. Confesso que hoje eu o acuso por ser um canalha. O primeiro canalha por quem eu me apaixonei. Enquanto eu processava a informação e o doutor trabalhava, minha mente inquieta me enchia de perguntas: Como ele chega assim do nada, e me enche de promessas de casamento? Eu crio muitas expectativas, tá doutor? Eu vou esperar que você se congele mesmo, viu?  #chateada.

Desde então, não faltei a nenhuma consulta, fosse minha ou da minha mãe. Eu precisava ter a certeza de que ele não ia fugir, né?

Aí, como todo relacionamento com canalha (tenho uma tese a respeito do assunto), um dia eu descobri um dos seus segredos que estremeceu nossa relação já tão íntima (Poxa, ele colocava a mão na minha boca, quer mais intimidade que isso?). Minha mãe fez um comentário qualquer e a resposta dele partiu meu coração em pedacinhos: “Pois é, eu sempre falo isso para a minha esposa!” Opa! Peraí! Que esposa? Parem já essa consulta! O que é isso? É claro que eu não fiz/falei nada, mas eu estava revoltada por dentro, eu juro. Como assim MEU futuro marido já tinha uma esposa? Como ele teve a audácia de falar isso na minha cara, sem se importar com os meus sentimentos? Nesse momento eu soube que devia ter ficado em casa assistindo aos desenhos animados. Me recusei a ser uma “moça educada” e não disse “tchau” na saída. Sou rebelde!

Pensei por dias sobre o ocorrido e cheguei a conclusão que aquilo não era um empecilho. Era claro que ele só ficaria casado por pouco tempo, apenas até eu crescer. Claro! Como não pensei nisso? Estava tão feliz que tudo voltaria ao normal. Quer dizer, mal sabia eu que uma coisa terrível ia acontecer em seguida.

Fui acompanhando minha mãe mais uma vez na consulta. Uns 5 minutos após chegarmos, ouvimos o nome dela pela porta. Então, nesse momento eu vesti meu melhor sorriso – e também convenci a minha mãe a me deixar usar a melhor roupa – só para ver meus olhos sorridentes novamente…mas, peraí! Onde? Cadê ela? Sim! Ela, a máscara! Dr. Y nesse dia achou que seria uma boa ideia não usá-la, revelando o que pra mim era um rosto completamente desconhecido e ainda pior: nada atraente. Era um rosto envelhecido e experiente, assim como seus cabelos, que já apontavam fios esbranquiçados. Como não liguei uma coisa à outra? Sou tão burra!

Tudo estava destruído. Nem o uso posterior da máscara fez meu coração acelerar novamente. Ele se foi. Meu amor se foi. Assim como Sansão que perdeu a força vinda de seus cabelos, meu amor mascarado morreu no dia em que o vi desmascarado. Que grande ironia.  Por fim, só desejei que ele fosse realmente feliz com sua esposa, já que eu não podia mais dar esperanças à ele. Em pensamento, depois dessa consulta, me despedi para não voltar. Aproveitei a transferência para o ortodontista e resolvi poupar seu sofrimento não acompanhando mais minha mãe a consulta desde então.

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